quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Criança


Por Monica Lopes


Houve um tempo em que eu era criança, e naqueles dias de criança, em que a gente ficava de short e camiseta de malha de algodão – às vezes de calcinha mesmo – tomávamos banho às quatro, cinco da tarde, e curtíamos o anoitecer. Brincávamos na calçada de casa ou na de vizinhos que, colocavam suas cadeiras do lado de fora para aproveitar melhor a fresca, como se dizia. Todos os pais dos amigos eram confiáveis, brincávamos sem qualquer preocupação. Como era um tempo bom, o cheiro da noite, das árvores com damas da noite exalando aquele odor inebriante, a lua acesa no céu iluminando a rua, as estrelas sorridentes e as pessoas gargalhando e com um assunto corriqueiro, enquanto ainda aproveitávamos aquele tempinho antes de entrarmos para dormir e esperar o novo dia.
Hoje tão diferente, os filhos não conhecem os filhos dos vizinhos, as amizades de escola se mantém só dentro dos muros de lá. Não confiamos mais no próximo como antes, vivemos uma total insegurança. Vemos a todo momento histórias de abusos, assassinatos e maldades com crianças, vitimas silenciosas e inocentes, como aquelas crianças que já fomos um dia.
Babás hoje em dia são televisões, vídeo games e computadores. Até colocarmos alguém para cuidar de nossos filhos é perigoso, batem, maltratam e acabamos reféns de pessoas que deviam amar crianças, mas só se preocupam com o dinheiro que será pago no final do mês.
Preferia o mundo de pique esconde, pique pega, amarelinha e salva bandeira. Preferia o mundo de faz de conta, de casinha, de sonhos e esperanças. Preferia um mundo em que os adultos cuidavam e amavam as crianças e não as via como presas parar suas doenças. E se aparecesse alguém que se comportava de forma inadequada os próprios vizinhos tomavam atitude, fazendo com que essa pessoa saísse da comunidade.
Mundo de sonho, um mundo que queria apresentar para os meus filhos. Deixei de trabalhar fora, passei a cuidar deles, só sair no período que estão na escola, ou depender da casa das avós para deixá-los em segurança enquanto trabalho. Eles não sabem o que é brincar na rua, ter amigos vizinhos. Deus me deu o segundo filho para fazer companhia ao primeiro e juntos são os melhores amigos. Dependem da amizade dos primos e primas para terem outras crianças para brincar. Os muros altos e portões eletrônicos os separam das outras crianças da rua. Que pena! Sinto que somos reféns de uma luta difícil de acabar. Onde a violência e a falta de amor ao próximo é o nosso inimigo que mora ao lado.

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